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 Rota Berber (25ABR-05MAI2012)

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Cobra

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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Sab 23 Jun 2012, 15:45

Por esta altura já não éramos tão ingénuos, e tínhamos por referência os 20 Dirhams/mota que nos tinham levado em Fés para um parque coberto e fechado. Não mandámos ali um logo às poias, porque tínhamos acabado de chegar e ainda nos sentíamos deslocados. Vagou um lugar e enfiamos lá as motas. Nisto veio o chefe da maralha dizer que ali as motas não podiam ficar. Um tipo mal-encarado nos seus quarenta anos, tradicionalmente vestido. OK, toca a tirar as motas e encostar, entre todos decidimos que o melhor era um de nós ir ao Riad e pedir as “instruções do protocolo”, dois dos fedelhos que por ali andavam, prontificaram-se a ir comigo a pé até lá. Assim foi.

Quando cheguei ao Riad fui recebido pela simpática Manuela, a proprietária de origem italiana. Perguntei-lhe se 300 Dirhams era preço razoável para três motas naquele lugar. Ela torceu o nariz aos dois putos que me tinham acompanhado, e disse-me que manifestamente não, e que geralmente o capataz do parque até costumava ser simpático… Pois talvez, para carro. Quando se tratam de motas, parece que o “sistema” entra colapso. No entretanto um dos fedelhos avança com uma nova proposta 20 Dirhams/mota em parque fechado… Bom, esta parece-me razoável. Ela já os conhecia e perguntou-lhes claramente se o preço era esse mesmo e se depois não mudava. O pilecas confirmou o preço e saímos dali de volta às motas para resolver o assunto.

O Riad não era longe do parque mas ficava num dos becos da Medina. De modo que desamarrámos a bagagem e levámo-la a pé. Aliviados das bóias laterais estávamos mais à vontade para enfiar as máquinas Medina adentro. Os putos iriam nos levar ao dito parque, e pelos vistos queriam andar os dois de “cu tremido”. Um seguia à boleia do Benedito (o taxista oficial da viagem) e outro queria montar-se na Tiger do Barradas… Só faltava mesmo o chefe da canalha querer ir à minha boleia!... Lá se convenceram que um bastava, e seguiu o Benedito à frente com o “guia”. Foi com bastante frisson que fizemos o caminho até ao suposto parque. O caminho fez-se por ruelas estreitas, mudanças de direcções apertadas, tudo desviando de bancas, pessoas e mobylettes a circular em todas as direcções. Um bom momento para mais tarde recordar! O parque de estacionamento era praticamente todo ele coberto e tinha boa pinta… Mas, e eis o revés… O homem queria 30 Dirhams por cada uma das motas... Chiça penico!... Não é por serem mais 10 Dirhams que não chega a 1€, mas é a atitude e o princípio!… Por esta altura já estávamos fartos de propinas, esquemas e serviços impostos, em suma de marroquinices! De Ouarzazate para a frente é onde estão os malandros. Oferecemos 20 Dirhams, o tipo aceitou 25 desde que saíssemos cedo de manhã. Ligámos as motas e viemos embora. Confusão de novo até ao Riad e estacionámo-las ali. Pedimos para falar com a Manuela para nos dar uma ajuda. Tínhamos de esperar pois ela estava no banho. O pintelho que tinha ido à boleia não desmobilizou e para ajudar á festa, estava ali o comparsa dele também. Mostrei-lhes o nosso desagrado e pedi-lhes que dessem corda aos sapatos, já não precisávamos mais dos serviços deles. Disse-lhes que se não sabiam o preço, então não o confirmavam como fizeram. Responderam-me que não sabiam que o parque tinha aumentado, coisa e tal… E não arredaram pé. Às tantas um deles, e perante o meu desagrado cada vez mais notório, começa a dizer que o preço que ele tinha dito era 20 ou 30 Dirhams… Raios o partam ao pintelho!... Se há coisa que me tira do sério é o desmentido e dar o dito pelo não dito. Veio-me um rasgo de fúria à cabeça e mandei uma arrochada à topcase do Barradas. Foi à topcase, porque o fedelho mentiroso estava a três metros de distância… Estávamos cansados, fartos de andar para a frente e para trás, e de ser comidos em esquemas e este pulha estava agora a dizer que o mentiroso era eu!…

Era preciso não perder o controlo, e por isso informei que ia ali ao lado andar um bocado para acalmar. Assim fiz, afastei-me e fui fazer os cem passos na rua ao lado. Foi por esta altura que comecei a ouvir o Barradas a elevar a voz e perguntar ao pirralho que idade é que ele julgava que nós tínhamos. Voltei ao lugar, e perante a minha insistência e do Barradas um dos putos decidiu desmobilizar, precisamente aquele que nos tinha levado ao parque. O outro ficou, sem dizer cheta. Às tantas perguntei-lhe o que estava ele à espera, e disse-lhe para meter-se a caminho. Respondeu-me que aguardava a Manuela para que falássemos todos. OK, pareceu-me razoável. Quando veio a Manuela, expliquei-lhe a cena, e ela de imediato confrontou o rapaz. Perguntou-lhe como podia ter confirmado à frente dela o valor por mais de uma vez, quando não tinha a certeza. O tipo desdobrou-se em explicações e não adiantou nada. Nisto tinha chegado o vizinho do Riad, um marroquino dos seus trinta que viva em frente. Imediatamente a Manuela perguntou-lhe onde poderíamos deixar as motas, o tipo lembrou-se de um parque onde segundo ele não seriam mais de 30 Dirhams.
A história acabou com a Manuela a dar 20 Dirhams ao puto ranhoso e nós a aceitar a proposta do marroquino. Seguimo-lo pela Medina, desta vez sem boleias. O tipo ia se esgueirando pelos atalhos das ruelas e nós a reencontrá-lo mais à frente. Fomos assim até ao parque de estacionamento, um local fechado de aspecto pouco cuidado, mas que serviria perfeitamente para deixar as máquinas em descanso. Ele foi primeiro lá dentro para ver do preço. 40 Dirhams cada por 24 horas… Mau… Não espera, 33 cada pelo mesmo… OK, perfeito, 24 horas dar-nos ia tempo para aproveitar Marraquexe durante a manhã e recuperar todo este tempo perdido! Aceitámos e agradecemos.

Já passava das 20h quando demos por terminado este triste episódio. Confesso que aqui se desvaneceu um pouco do encanto do povo marroquino. Felizmente e como se compreende, nem todos são iguais. Fiquei com a impressão que à medida que nos vamos aproximando da costa a malandrice e oportunismo aumenta. Há mais esquemas de angariação, onde quem paga perde facilmente a noção de como e por quem está a ser distribuído o seu dinheiro. Imagino facilmente que os 30 Dirhams que nos foram pedidos seriam repartidos entre o responsável pelo parque de estacionamento fechado, o puto que lá nos levou e até talvez o chefe guarda do parque da Prefeitura. E depois este pessoal cria necessidades onde não existem e cobram por isso. O parque da Prefeitura é um bom exemplo. Trata-se de um local público gratuito explorado por uma teia de aldrabões que não faz nenhum o dia todo e que se apropriou daquele local sem sequer os terem instituído!
Bom, finalmente estávamos instalados, ainda que separados em dois hóteis. Por uma questão de disponibilidade de quartos, o Benedito teve de ficar a solo noutro hotel ali próximo. Eu e o Barradas ocupámos um duplo no Mon Riad, e que pintarola de quarto. Todo o Riad era fabuloso! Mantendo a traça original estava soberbamente decorado num estilo árabe e ocidental, combinados em perfeita harmonia. Depois de instalados tratámos de sair à rua para desfrutar todo o ambiente da Medina. O Benedito já tinha assentado arraiais no Riad ao lado do nosso e já nos aguardava à porta para sairmos juntos. O principal motivo por termos optado por esta localização era a proximidade da famosa praça Jeemna El Fna. Esta praça é provavelmente a mais importante de Marraquexe, ou pelo menos da Medina.





Marraquexe é com certeza o centro turístico de Marrocos. A cidade está povoada de pessoas de outras nações e as ofertas levam isso em consideração. O mercado da Medina é enorme e não faltam por lá muitas “chinesices”, tornando-o de alguma maneira menos autêntico. Saímos pelas estreitas ruas em direcção à praça, espreitando à distância as diversas lojecas. Havia de tudo, umas atrás das outras. Candeeiros, roupas, sapatos, comida, especiarias, enfim… Um sem-número de coisas! No caminho lembro-me de pararmos à frente de uma loja de produtos naturais o que fez logo sair o lojista. Fomos logo puxados lá para dentro, aliás é o truque que todos usam. Primeiro entra-se só para “ver”, depois fazem-nos uma demonstração, e a seguir virá o provável negócio.



O tipo extremamente simpático fez-nos uma demonstração de um pouco de tudo. Sabonetes, perfumes naturais, pedras, pastas e pós. A melhor foi quando misturou cominho negro com cristais de eucalipto num pedaço de tecido e nos fez inalar esta curiosa combinação. O Benedito que estava com o nariz congestionado ficou logo bom, com o olfacto recomposto ao estado normal. Eu experimentei e bateu mesmo forte! Inspirado com vigor é uma sensação refrescante e aliviante que vai até ao centro do moina, literalmente. O fulano ia fechar a loja e nós queríamos comer, pelo que ficámos de ali voltar no outro dia.



Finalmente chegámos à praça, e que cenário… Numa das extremidades encontravam-se as barraquinhas de fruta, sobretudo laranjas, tâmaras e frutos secos. No centro estavam várias dezenas de tendas de comes e bebes e uma fumarola no ar que fazia impressão! Caracóis, pão, espetadas, camarões, salsichas e outros petiscos eram servidos em pequenos pratos a quem quisesse sentar-se nas mesas e bancos corridos em redor das pequenas bancas. Havia angariadores à boa maneira da Feira Popular a tentar convencer os passantes que ali se come melhor. Levávamos uma cábula. Tínhamos como referência de confiança a barraca nº1 (todas elas estão numeradas). Sentámo-nos à mesa e espreitámos o menu. Mandámos vir pão, sopa, uns camarões, umas espetadas e umas merguez (salsicha de carneiro e vaca meio picante). Apesar de todo o aspecto rudimentar da coisa senti-me ali bem, estávamos a viver a cena e a sentir o espírito! Estivemos ali talvez uma hora, a petiscar nas calmas e a falar desta vida bem boa…



Depois fomos às compras. Ou pelo menos a ver o que havia. Encontrámos uma t-shirts com impressão alusiva a Marrocos que achámos piada. Regateamos ali um bocado, baixámos o preço para as três, e lá as levámos, uma para cada um. Ainda antes de regressarmos aos Riads, o Benedito ainda conseguiu negociar um magnífico puff em pele cujo preço final depois de regateado ficou em metade, cerca de 350 Dirhams (um pouco menos de 35€). A parte da manhã do dia seguinte estaria guardada para mais negócios. O Benedito deixou-nos à porta do nosso Riad e seguiu para o dele. No quarto ainda se carregaram algumas fotos na net, antes de reclamarmos o devido descanso!

continua...

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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Ter 26 Jun 2012, 22:31

Dia 8, Marraquexe-Essaouira

Noite bem dormida, pequeno-almoço tomado (com os mimos habituais) e estávamos na rua. O Benedito tinha dormido num Riad ao lado, mas logo se encontrou connosco.


o nosso riad

De véspera, e por causa de um desagradável episódio sobre a escolha do parque onde deixaríamos as motas, perdemos mais de uma hora já depois de chegar a Marraquexe.

Assim, e porque o troço de estrada a fazer até Essaouira era de uma relativa curta distância (menos de 3h), decidimos sair mais tarde e aproveitar mais algum tempo para explorar o mercado de Marraquexe.





vai, que ainda cabe muita coisa

Seguimos directos para a praça Jeemna El Fna, hoje pela manhã totalmente diferente de como a tínhamos visto. As tendas de comes e bebes já não estavam, apenas se mantinham as barraquitas da fruta. Apesar de haver já algum povo na rua, a Medina estava ainda a “acordar”.




Grande parte dos negócios estavam abertos ou a abrir, mas muitos ainda se encontravam fechados.



restaurante fino típico marroquino

Andámos por ali, para trás e para diante, há procura de lembranças a bom preço para levar para casa.


O Benedito era o que estava mais entusiasmado. Já de véspera tinha feito negócio com um puff e hoje estava com vontade de trazer mais coisas. Nomeadamente um candeeiro marroquino (aqueles grandes em metal) que já andava a namorar há uns dias… Ainda lhe demos a sugestão de levá-lo amarrado às costas na mota, mas de facto viajar em duas rodas tem este inconveniente do espaço.





esta loja eram 4 ou 5 pisos de marroquinaria de todo o feitio

Já muita sorte teve ele de ter conseguido enfiar um puff numa das malas laterais! Ao cabo de duas horas todos tinhamos as compras feitas (ténis, sandálias, relógios, brincos, colar e uns ímanes para frigorífico). Houvesse mais tempo e o Benedito ainda tinha trazido mais umas coisas!




estes triciclos vimos-los por todo o lado

Já passava das 11h00 quando nos dirigimos ao parque para recolher as motas. Tudo em ordem. Entregámos a senha e saímos de lá com elas em direcção aos Riad.



Carregámos as malas, pagámos a conta e ala que se faz tarde! Próximo destino, Essaouira, uma pequena vila piscatória situada na costa atlântica marroquina. Menos de 200kms em linha recta para cumprir nas calmas e apreciar a bonita paisagem.
Totalmente descontraídos seguimos pela nacional que liga Marraquexe à costa, estrada boa, desimpedida e, por vezes, com mais de uma faixa. Às tantas vejo o Benedito aos “esses” à minha frente… Volta não volta é habitual fazermos isso, sobretudo depois de muita estrada a direito, acaba por variar um pouco a condução e “limar” as laterais do pneu. Ia atrás do Benedito com a câmara do capacete ligada e aproximei-me dele para filmar a cena… Ele parou com a dança e aí lembrei-me de pedir ao Barradas que seguia à frente para começar com o baile. Depois comecei eu, e rapidamente o Benedito percebeu que havia dança e alinhou… Ficou tudo registado, três portugueses malucos aos “esses” no meio da estrada… Bom momento de descontracção!... Eu acho que foi por esta altura que entrámos em modo de cruzeiro. O stress e ansiedade inicial de andar por novas paragens estava a desaparecer.
Depois de 7 dias, um pouco por todo o lado, já estávamos completamente entrosados e à vontade neste meio e começávamos agora a descontrair e a apreciar este magnífico país de outra forma.

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Última edição por Cobra em Ter 26 Jun 2012, 22:41, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Ter 26 Jun 2012, 22:33

Parámos numa localidade qualquer, no primeiro restaurante com grelha. Típica pintarola de boteco marroquino, com um avançado rígido para a rua onde se encontravam o grelhador e umas mesas. Dirigi-me ao tipo à frente das chapas que com um largo sorriso nos fez sinal para nos sentarmos.



Essa é uma característica que vimos durante todo o percurso. Sempre tivemos um tratamento diferente. Não sei se será o facto de nos fazermos deslocar de mota ou a nossa pinta de turistas, mas em todo o lado há por parte dos locais uma preocupação em nos agradar genuinamente. De forma humilde, mas empenhada, fazem gosto em nos servir da melhor forma, sempre com a vontade que apreciemos o que eles têm para nos oferecer. Aqui, como noutros botecos anteriores, tivemos direito a que nos escolhessem a mesa e nos facultassem talheres (tipicamente a comida é manuseada com as mãos). Nisso, creio que são muito parecidos connosco, é um povo que sabe receber!

Embora fossemos com algum receio da alimentação, esse nunca foi um verdadeiro problema. Creio até que o Benedito foi o que se safou melhor, e era inicialmente o que tinha maior receio. Nunca tivemos grande preocupação e sempre fizemos questão de não seleccionar restaurantes ocidentais, que também por cá existem. É verdade que os conceitos de higiene são diferentes por aqui, mas nunca tivemos problemas com isso em relação à comida. Os únicos “inconvenientes” deveram-se ao facto de não estarmos habituados aos temperos, e nunca estiveram relacionados com a qualidade da comida. A propósito, os meus desarranjos de véspera estavam melhores depois de consumir um Ultra-Levure.

O Benedito optou por frango e eu e o Barradas por carne de vaca picada, na brasa. Estava bom e bem aviado. Aqui deixei logo de lado as azeitonas e a salada marroquina habitual, restringi-me ao pão e ao meu prato. Pagámos e seguimos o nosso caminho. Mais um pouco até Essaouira. No caminho efectuámos mais um abastecimento e passámos por uma cena trágica, um atropelamento do que nos pareceu ser uma criança. Da maneira como conduzem, não devem ser infrequentes estas tristes cenas.

Finalmente começámos a avistar o mar da estrada, o que significava que estávamos a chegar ao destino. Descemos até ao nível do mar para entrar em Essaouira. Desta vez o hotel estava situado nos limites da cidade, mais propriamente a Sul, longe da confusão. O ponto do GPS estava correcto e levou-nos ao edifício pretendido, o Hotel Borj Mogador com aspecto ocidental e agradável. Fomos à recepção fazer o check-in, e perguntámos onde poderíamos deixar as motas. Havia ao lado uma espécie de pequeno terreno baldio a fazer de parque onde poderíamos deixar as motos. Tinha guarda (claro…) ao preço de 10 Dirhams por cada mota. Mesmo com guarda deixámo-las amarradas, não fosse o diabo tecê-las. Descarregámos as malas no quarto, que não sendo nada de especial, era correcto e agradável, com a grande vantagem de uma das janelas ter vista para as “burras”!



De onde estávamos à Medina, seriam ainda uns 30 minutos a pé, andando bem. A 7 Dirhams (menos de 0.70€) a viagem de táxi não havia mesmo razão para gastar as solas. Aliás, a este preço percebemos que a opção de ficar na Medina não é a melhor aposta. É fácil arranjar boas alternativas, a melhor preço, com parqueamento, fora da zona velha da cidade e optar por utilizar o táxi para as deslocações. Apanhámos o táxi logo em frente ao hotel, um Dácia creio que com 200 mil quilómetros e vários remendos. Em menos de 10 minutos estávamos à porta da Medina.





Este local, e a costa atlântica marroquina, no geral, dizem-nos muito: Essaouira já foi portuguesa! Regressando à época quinhentista dos Descobrimentos, quando Portugal foi grande e desempenhou um papel importante no mundo. De facto, nessa altura, e sobre o nome de Mogador, os portugueses estiveram aqui instalados (e noutras 5 cidades costeiras) durante cerca de 5 anos. Fundada à mais de 2500 anos, foi ocupada por lusos que a fortificaram e a equiparam com armamento bélico. Aqui foi erigido o Castelo Real de Mogador em 1506, tendo sido tomado pelos berberes 4 anos mais tarde, obrigando a guarnição portuguesa a refugiar-se em Safi, uma cidade mais a Norte por onde também iríamos passar.
Essaouira sempre representou um ponto estratégico na costa marroquina. Antes do porto de Agadir se estabelecer, era por aqui que eram feitos os embarques e desembarques de homens e mercadorias. A fortaleza portuguesa não resistiu à remodelação e refortificação levada a cabo no século XVIII e pouco resta por lá que assinale a nossa curta passagem, a não ser o saudoso nome pela qual foi conhecida.





Depois da “loucura” de Marraquexe, estávamos secos de dinheiro. Tínhamos de levantar mais algum para dar até ao fim da viagem. Passámos por uma caixa logo depois do primeiro pórtico da vila, mas havia ali um problema. O Sol batia de frente no ecrã, e este não estava nas melhores condições. Ainda fizemos uma tentativa mas não se percebia nada.

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Última edição por Cobra em Ter 26 Jun 2012, 22:40, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Ter 26 Jun 2012, 22:35

Continuámos e avançámos pela rua principal da cidade que atravessa a Medina. Uma rua sem trânsito mas suficientemente larga para ter dois sentidos. Por ela se encontravam uma série de bancas, para além das enúmeras lojas nos edifícios contíguos. Muito povo na rua, para cima e para baixo. A Medina adensava pelos vários becos e ruelas perpendiculares à rua onde nos encontrávamos.
O Barradas comprou um saco de amendoins a um fulano que os torrava no local, e fomos comendo-os. Às tantas e sem caixote do lixo algum, fizemos como os outros mandando as cascas para o chão… Pelo menos estas são biodegradáveis. Saímos da rua principal e seguimos em direcção ao oceano, à procura da muralha exterior ao porto, ou a Scala Kashbah como é aqui conhecida.






esqueçam os dois artistas e prestem atenção ao engenho da bicla... é de 2 lugares

As ruas são estreitas, encavalitadas e labirínticas, mas lá demos com o caminho. Daí a pouco estávamos sobre a muralha, debruçados sobre a água.



Fantástico este local! Muitos turistas por aqui, mas também pessoas locais sentadas a apreciar o Sol e a ver o tempo passar. A muralha ampla é decorada por algumas dezenas de canhões europeus (a maioria espanhóis) do século XVII.





grandes vidas

Tem dois níveis, e no de baixo residem umas quantas galerias com venda de artesanato, numa onda mais refinada e também mais calma que o frenesim de Marraquexe.






Aqui já se respira Europa. Esta fortificação e a sua gémea na zona do porto (Scala do Porto) estão aqui há quatro séculos e foram mandadas construir na zona onde outrora existira o Castelo Real de Mogador.



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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Ter 26 Jun 2012, 22:36

Subimos para as gigantescas ameias da muralha para ver a costa e tirar umas quantas fotos. Pena foi termos o Sol de frente.






Depois seguimos até à torre a Norte da muralha para passear mais um pouco por ali.






ora aqui está um bom exemplo de empedrado árabe que provavelmente inspirou a nossa calçada portuguesa

Nisto o Barradas entra em pânico! Levou a mão ao bolso e não encontrava a chave da Tiger… Bem… Ou a perdeu, ou a deixou na ignição… Mas já não sabia… De qualquer forma, já havia pouco a fazer. Encontrar uma chave perdida em Essaouira, só mesmo com um golpe de muita sorte… Se tivesse ficado na ignição, havia uma boa probabilidade do nosso guarda a ter guardado. Assim mesmo, as motas estavam presas com as correntes e cadeados e supostamente teríamos um tipo de vigia… No caso da chave estar irremediavelmente perdida, o Barradas também não ficaria apeado pois tínhamos trocado entre nós o segundo jogo de chaves.



Assim, prosseguimos com a visita. E estava na hora de tratar do jantar. Eu levava de referência uma dica de um colega. Um mercado da vila com a possibilidade de se comer no local o fabuloso peixe fresco. Mas primeiro tínhamos de ir tratar de levantar umas moedas. Com o Sol mais baixo, fizemos uma segunda investida ao ATM defeituoso.

Estava um pouco melhor, e o Barradas fez uma tentativa. Com alguma dificuldade conseguiu levantar mais 2000 Dirhams. Engraçado foi depois disto, o facto do ecrã da máquina voltar a funcionar. Era mesmo defeito e parece que ficou bem. Óptimo, ficou mais fácil para eu e o Benedito também de seguida levantarmos dinheiro.

Voltámos à rua principal da vila. Tinha indicação que o mercado estaria numa ruela perpendicular ao primeiro ou ao segundo arco. Ainda nos metemos por aqueles becos, mas sem sucesso. Às tantas voltámos à rua principal e junto ao arco perguntei a um polícia que por ali estava. Prontamente me respondeu que ficava ali por uma rua a poucos metros… Perfeito! Demos com aquilo sem grandes problemas. Uma espécie de pátio escondido repleto de bancas de peixe fresco. Em redor deste pequeno mercado existem umas galerias com umas mesas e cadeiras manhosas. É aí que se prepara e serve o peixe. Não nos fizemos esquisitos e entrámos numa. Um marroquino de calças à pescador apressou-se a arranjar-nos uma pequena mesa junto à parede. O aspecto do local não era para fracos. Iluminação fraca, aspecto a condizer, e um chão que colava à sola dos sapatos… Tirando isso, tudo fino!… Venha o peixe. Pedimos uns camarões, lulas para o Benedito e dourada escalada para mim e para o Barradas. Vieram os pratos, e estava bem bom! Sabia bem variar um pouco das tajines e espetadas dos passados dias. Despachámos tudo com uma grande categoria e no entretanto, duas mesas à nossa volta tinham sido ocupadas por turistas: uma com um casal de velhotes franceses, e outra com um grupo grande de italianos. Está a ficar famoso este sítio.

Pagámos uns 70 Dirhams cada (qualquer coisa abaixo dos 7€) e saímos. Regressámos à rua principal para fazer o caminho de volta até ao porto, onde se encontrava a praça de táxis. A rua estava ainda mais animada de gente. No caminho, o Benedito ainda fez uma visitinha a uma loja para negociar qualquer coisa. Aqui o estilo é completamente diferente, não estão empenhados da mesma forma que pudemos presenciar em Marraquexe. Um dos marroquinos que lá estava, o mais jovem começou a fazer olhinhos aos nossos sapatos. Queria negociar os meus Merrell ou os do Benedito… Recusámos, claro.



Já na praça de táxi e com a noite posta, entrámos no primeiro da fila para regressar ao nosso hotel nos limites da cidade. Pagámos 8 Dirhams (menos de 0.80€).



O Barradas ia com alguma esperança de reencontrar a chave no canhão de ignição. Quando chegámos encontrámos logo o nosso guarda do parque que me explicou que tinha retirado a chave da ignição e entregue ao tipo da recepção. Nesse momento, o Barradas com um sorriso de orelha a orelha apanhou os “ditos” literalmente do chão!

Subimos até aos aposentos. Estávamos cansados, mas satisfeitos da vida! Ainda se deram umas tecladas na net para conversas e actualizações de facebooks. E finalmente, uma boa noite de sono.

continua...

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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Dom 08 Jul 2012, 22:48

Dia 9, Essaouira-Safi-El Jadida

Acordámos depois de uma noite bem dormida. Tínhamos pela frente 300 e poucos quilómetros de estrada costeira entre Essaouira e El Jadida.



Aprontámos a tralha e fomos tomar o pequeno-almoço no restaurante do hotel, uma sala ampla e um pouco sombria. Pagámos a estadia e levámos a bagagem para junto das motas, que teriam que ser desamarradas antes de levar a carga.


arrumadinhas

O velhote guarda do parque estava por ali para receber o prometido. Creio que o Barradas lhe pagou um pouco acima do combinado (10 Dirhams por mota, ou seja menos de 1€) pela satisfação de recuperar a chave que tinha esquecido!



O tempo estava ao nível dos outros dias: sol com céu pouco nublado e a temperatura ligeiramente mais fresca devido à influência dos ares da costa. Qualquer coisa um pouco acima dos 21ºC, perfeito para rolar de mota. Saímos de Essaouira por onde entrámos, e logo apanhámos a estrada costeira. Durante vários quilómetros rolámos sempre com o oceano à vista. Tirando alguns dromedários a pastar, a paisagem é em tudo semelhante à nossa costa atlântica.



Por volta da hora de almoço estávamos a entrar em Safi, vila costeira a Norte de Essaouira. E também por aqui estiveram os portugueses há 500 anos! Já lá ia um dia sem fazer um Souk (mercado) de mota… Pelo que obviamente, na esperança de alcançar a zona portuária, atravessámos o primeiro Souk que encontrámos. Pelo meio do maralhal, entre os pepinos, cebolas e outras leguminosas chegámos à baixa da cidade.



Aí encontrámos uma rua larga com estacionamento em espinha, com o habitual guarda. Parámos e perguntámos quanto era. O tipo, com chapéu à motorista, de tês escura e bigode à Chalana, não falava uma palavra de francês. Tentámos espanhol, inglês e nada. Lá veio um lojista fazer a tradução, queria 15 Dirhams. Menos de 50 cêntimos por cada mota pareceu-nos tolerável. Deixámo-las por ali e avançámos à procura de almoço. Peixe de preferência, que de carne já estávamos um pouco cheios. Subimos o Souk de novo a pé, e descemos pela rua paralela que parecia entrar mercado dentro. De cada lado dessa rua estreita e cheia de gente, estendiam-se dezenas de barracos com “jeitos” de restaurante com apenas e uma única coisa para venda, peixe frito. Eram dezenas de frigideiras a fritar peixe, rua abaixo… O Barradas gosta muito de peixe, desde que não seja servido frito. Assim descemos a rua e fomos à procura de outra coisa. Mas peixe em Safi, parece que só frito! Assim lá nos decidimos por um pequeno restaurante com os tradicionais pratos de carne.




Éramos os únicos clientes, o que à partida não é bom sinal. Mas dada a hora um pouco adiantada, poderia ser disso. Fomos atendidos por um miúdo simpático com talvez uns 12 anos, muito eléctrico e agitado. Parecia que andava a “drunfos”. Os Ruis optaram pela tajine kefta e eu pelo frango, para variar um bocadinho da carne moída. Os frangos eram assados na máquina, que por acaso estava mesmo ao nosso lado. Aqui o frango assado é servido com especiarias, aliás como tudo. E o meu devia levar algum tipo de caril ou açafrão, porque o amarelo carregado, não é a cor natural do frango. Mas estava agradável. Vieram as habituais saladas, pão e uns pratinhos de molhos a acompanhar.
Comemos, pagámos e regressámos às motas para não perder mais tempo.
Quando me preparava para pagar os 15 Dirhams ao guarda do chapéu, o gajo faz-me sinal que queria mais. Perdão?!... Lá percebi que queria 20 em vez de 15… Estupidamente passei-lhe mais 5 Dirhams para a mão… E a seguir veio a fúria… Onde é que já tinha visto isto?!... Ah sim, em Marraquexe…
Comecei a confrontá-lo falando em francês, mas o gajo ficou a fazer o número de homem estátua. Pudera, já tinha o que queria! Atravessámos a rua, fomos ter com o lojista para confirmar o valor inicial… E o gajo confirmou, e do outro lado da rua mandou uma “bujardadas” em árabe ao artista da chapeleta… A reacção dele foi, sorrir.

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Última edição por Cobra em Seg 09 Jul 2012, 19:59, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Dom 08 Jul 2012, 22:49

A mim apetecia-me enfiar-lhe o chapéu até aos queixos, mas ainda fui ter com o tipo e apontei-lhe o dedo ao nariz… E ele nada… Parece que estão treinados para não reagir. Por esta altura eu já tinha a voz bem alta, e o fulano podia não perceber francês, mas percebeu que estava de “trovoada” e estrategicamente mudou-se para o outro lado da rua… Bom esquece… Vamos mas é embora… Novamente, o mesmo “filme”. Não é por mais 50, ou menos 50 cêntimos, é pela atitude, e porque ninguém gosta de ser enganado.

Tínhamos mais uns quilómetros desta deliciosa estrada costeira para fazer. Às tantas, e porque já íamos fartos de andar pelo cimo da costa, metemos-nos por um caminho de terra que levava até perto do mar. Mesmo carregadas, um troço fácil para estas trails, apenas com algum cuidado no final onde o terreno tinha um pouco de areia.




Instantes antes o Barradas tinha feito uma paragem forçada. Segundo ele, a Tiger estava a fazer um “grilar” estranho em baixas, em mudanças altas. Ficou preocupado, mas a situação não parecia ser constante e do mesmo modo que veio, foi-se. Quando parámos lá em baixo uma inspecção mais atenta revelou que o suporte inferior de fixação do radiador estava em falta. Era o segundo parafuso que se perdia. O primeiro, um parafuso de fixação da carenagem da VStrom do Benedito tinha ido à sua vida logo no primeiro dia. Nada de grave, quer num caso, quer noutro, dado que as peças estavam fixas por outros pontos. Uma situação normal depois de tantos dias de solavancos e vibrações.




Talvez o ruído que o Rui sentiu momentos antes, tivesse a ver também com esta situação. Mais tarde atribuímos este grilar, e também umas falhas de ralenti que tinha sentido na minha Tiger à saída de Maraquexe, à qualidade da gasolina. Já tinha ouvido e lido sobre a falta de qualidade de gasolina por aqui, que deverá depender muito dos locais onde se abastece. Tentámos sempre que possível abastecer em estabelecimentos que pela sua aparência nos davam alguma confiança. Mas parece que por aqui o combustível tem alguma mistura de água, e ao fim de muitos quilómetros isso faz-se sentir no trabalhar dos motores… Nada de grave ou preocupante. Mais parafuso, menos parafuso, as três máquinas nunca se negaram a seguir a toque de acelerador.




Voltámos à estrada e ao nosso caminho. A paisagem continuava agradável, sempre com o mar à nossa esquerda. De caminho ainda vimos um ou dois dromedários a pastar à beira da estrada. Depois lembro-me de passarmos próximo daquilo que parecia uma feira de burros com centenas deles amarados às carroças do lado fora. Fizemos mais uns quilómetros e finalmente entrámos em El Jadida, o nosso destino. Na paragem anterior, numa estação de serviço à entrada da cidade, vimos que o Barradas não estava sossegado. Estava ali com um desarranjo na zona do abdómen. Deveria estar na mesma situação que tive há uns dias. O organismo estava a ressentir-se dos menus! Disse-nos que aguentava até ao hotel, mas a coisa estava agitada. Entrámos pelo Souk de El Jadida, claro. Pelo meio das frutas e legumes chegámos à porta da fortaleza. Dado que não conseguimos arranjar as coordenadas certas do Dar El Jadida (local onde iríamos ficar) as coordenadas que levávamos do GPS eram da proximidade da cisterna portuguesa.

Logo no interior da fortaleza estão uma série de lojas. Pedi ajuda a um lojista, que me indicou o caminho com a promessa de uma visita à sua loja, OK. Ainda me disse a correr que o avô dele era português, chamava-se João.
O Dar não era muito longe dali. Passámos a cisterna, virámos numa ruela à esquerda e seguimos por ali, como nos tinha indicado o marroquino. A rua termina numa praça, e mesmo aí vislumbro um tipo de bigode abastado nos seus cinquenta e muitos a fazer-me sinal… É aqui.



Deixámos as motos na praça e a primeira coisa que fiz foi pedir ao fulano que apontasse ao Barradas o caminho da casa-de-banho… O Barradas saiu disparado e eu e o Benedito ficámos com o fulano… E o fulano, era o Massimo, um ex-gondoleiro veneziano radicado em Marrocos e proprietário do Dar El Jadida (ou “casa del gatto” em italiano). O Massimo arranhava o francês e o inglês. Fui falando com ele em francês, e percebíamo-nos. Como personagem é o típico porreiraço! Levou-nos logo para a entrada do Dar e mostrou-nos no facebook umas fotos de outros portugueses que por ali tinham passado há dias. Não conhecíamos.

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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Dom 08 Jul 2012, 22:50

Na recepção estava um quadro pendurado com uma foto grande do Massimo na companhia da sua mulher, ambos em cima de uma moto Guzzi… Ui, também é motard!
Por cima estava uma luva de cabedal, mas apenas uma. Explicou-nos que era a luva dele, e que numa volta de mota tinha perdido a outra. Também nos falou do grupo de amigos das motas que tinha em Itália (“Ombre Rosso”), e da morte da mulher há uns quatro anos… Estávamos em casa.
Ofereceu-se logo para nos servir o jantar, um magnífico spaghetti al salmone, por 60 Dirhams… O Barradas já estava connosco, e esta oferta era tudo o que queríamos ouvir… Uma “pasta” feita por um italiano com pinta de apreciar bem as coisas boas da vida, não poderia com certeza desiludir… Aceitámos.

Seriamos os únicos a ficar no Dar esta noite, pelo que em vez de ficarmos três no mesmo quarto, acabámos por ocupar os dois quartos de um piso. Os roncadores para um lado e outro para o outro. Foi aí que conhecemos a companheira do Massimo, uma marroquina dos seus trinta e poucos anos originária do Sul de Marrocos, junto à Mauritânia… Era alta, simpática, com uma pele de cor escura e feições mais africanas que marroquinas. Falava bem francês, mas tinha alguma dificuldade na construção das frases, o que por vezes confundia a percepção do que queria exprimir. Não fixei o seu nome. Era ela que parecia tratar da lida da casa. Foi ela que nos negociou um guarda para as motos na praça. Ficámos com dúvidas se seria mesmo necessário, ou se seria mais uma forma de fazer o “favor” a um desgraçado. Seriam 100 Dirhams pelas três motas, mas em serviço de plantão. O tipo iria literalmente dormir de frente para as motas… Recomendaram-nos os serviços do guarda, porque a zona era antiga e tal… e nós aceitámos.


No topo do Dar

Queríamos claro, visitar a cisterna portuguesa. E por isso apressámo-nos em descarregar as malas e correr para lá. Na verdade não foi preciso correr, a cisterna ficava logo ali a 50 metros da casa do Massimo. Entrámos no edifício que faz também funções de esquadra. Pagámos a entrada, 10 Dirhams. Parece que é bilhete padrão, tudo o que é monumento nacional tem esse preço. Depois abriram-nos a porta de madeira de generosas dimensões que dá acesso à cisterna. E aí pudemos assistir ao maravilhoso espectáculo que é esta obra de arte da arquitectura Manuelina. Antes de continuar o relato, algum contexto histórico.
À semelhança de Essaouira, El Jadida é também uma ex-cidade portuguesa. Por volta de 1500 sob o nome lusitano de Marzagão, pela nossa mão foi aqui fundada uma vila. 40 anos passados, e depois da coroa portuguesa perder os portos de Agadir, Safi e Azemmour, o rei ordena a fortificação seguindo o modelo militar de fortaleza em estrela armada com cinco bastiões. Ao fim de um século, com o interesse dos portugueses virado para o “Novo Mundo” e o cerco árabe permanente, os habitantes de Marzagão transformam a antiga sala de armas em cisterna de águas pluviais, vital para a sua sobrevivência. O domínio português finda-se em 1769 quando a cidade fortaleza é retomada pelos árabes após um cerco levado a cabo com 120.000 soldados árabes e berberes. Na sua fuga, os portugueses destroem o que podem da cidade, tendo esta sido reconstruída apenas em 1820. É neste cenário que nasce e se mantém a “cisterna portuguesa”, obra de estatuto importante na arquitectura Manuelina e Renascentista, e desde 2004 incluída no restrito património mundial da UNESCO. E foi precisamente a este local que tivemos acesso.
O interior é iluminado por uma luz fraca e por uma abertura central em forma circular. O solo tem uma leve inclinação para o centro e é chumbado para garantir a estanquicidade.







Um dos efeitos cinematográficos deste local é proporcionado pela fina película de água que cobre o fundo. Proporciona um espelho de água perfeito, conseguindo reflectir os pilares e a luz exterior que passa pela abertura destinada a receber as águas pluviais. Os seus 34 metros quadrados de área habilitam a sala com propriedades de eco e conferem um ar austero ao local. E por ali estivemos mais de meia-hora, a tentar captar as melhores imagens deste fabuloso local! É claro, a fraca luz não é amiga da fotografia e dado que não tínhamos connosco tripés de jeito, tivemos de improvisar com as condições que havia.







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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Dom 08 Jul 2012, 22:52

Depois saímos da cisterna e fomos passear até aos mercados da Medina. O Barradas por esta altura procurava desesperadamente umas bananas… Diz que prende!



Lá encontrámos as bananas numa das muitas bancas de fruta do mercado. Continuámos rua acima, e o Benedito foi espreitar umas roupas. Seguimos mais um pouco e parámos num boteco curioso, repleto de juventude. Sítio onde há muito marroquino a comer, é bom sinal! No interior estava um tipo a estender e cozer uma espécie de massa de crepe num quadrado com perto de 1 metro de lado. Depois passava esse crepe gigante a outro que cá fora retalhava-o em bocados, e servia-os aos que jovens que se acumulavam à volta dele. Os bocados eram cortados consoante o preço que se pretenda, e alguns borrifados com mel no interior. Este crepe, já o conhecíamos, ainda que não nestas dimensões, era presença frequente nos nossos últimos pequenos-almoços. Trata-se de um crepe marroquino folhado à base sêmola, conhecido por Msemen.
Ficámos com vontade, aproximámo-nos para saber de preços. Um dos jovens que ali estava percebeu logo o nosso interesse e explicou-nos que havia bocados para vários preços, 1, 2, 5 ou 10 Dirhams. Pedimos um pedaço grande com mel, creio que de 5 Dirhams (menos de 0,50€). Embora o Benedito se queixasse que não lhe sentia o mel, estava bom. Um pouco enfartadiço, mas bom. Demos a volta ao mercado e continuámos pela Medina contornando as muralhas da fortaleza portuguesa. Às tantas andávamos um pouco perdidos, mas lá se achou um caminho. Passámos por umas ruas estreitas, cheias de povo e negócio. Muitos legumes, e carnes penduradas ao género daqueles talhos improvisados marroquinos. E, finalmente o mar. Estávamos junto à costa do lado fora da fortaleza. Nada de muito especial.




À nossa direita as muralhas velhas e imponentes, à esquerda o mar e continuação da cidade. Lembro que de caminho passámos por um cão deitado junto à muralha, primeiro achámos que estivesse a dormir, mas no regresso percebemos que tinha morrido há pouco… Uma penosa memória.



Afinal há por cá escolas de condução, mas devem ser uma mera formalidade

Reentrámos na fortaleza, por uma porta larga e baixa da muralha. Por cima ainda se conseguia ler “Porta dos Bois”… Mau…

Facto curioso é apesar da cidade ter abdicado do seu nome português, as ruas no interior da fortaleza manterem os seus nomes originais portugueses. Regressámos pela rua da Cadeia, nas costas da cisterna.



Ainda por lá se vê o edifício selado com as janelas gradeadas. Passámos pela esquadra que partilha o edifício da cisterna e regressámos pela rua dos lojistas… E claro, fomos “agrafados” por um! Lá nos convenceu a entrar na loja deles (é o primeiro passo, todos querem isso) e fez-nos a demonstração dos artefactos. O povo aqui tem fisionomia diferente. A pele é escura em tom ocre, como é habitual na maioria dos marroquinos, mas o rosto é diferente, mais redondo, nariz aquilino e com os olhos menos escavados. São traços que nos são mais ou menos familiares. Aqui há mistura de sangue luso e marroquino e isso é visível.

O tipo tinha a loja muito bem arranjada. Mostrou-nos um pouco de tudo. Cerâmica de Fés, punhais tuaregs, jóias berberes, mantas marroquinas, etc… Um pouco de tudo, com extremo bom gosto e qualidade. O Benedito fez um reparo, que lhe agradava as mantas, mas que não tinha mais espaço para levá-las… O marroquino já não o largou… Tivemos de lhe explicar que estávamos no fim da viagem, carregados e de mota. A conversa acabou com o marroquino a dizer, que se a vontade de Alá fosse que ele levasse a manta, que ele iria levar a manta! Disse-nos que teria a loja aberta até às 20h00, e quem sabe regressando ao hotel não conseguisse encontrar um espacinho na bagagem para enfiar mais uma manta… Os tipos não desistem mesmo de nos vender tralha. Agradecemos e fomos embora.

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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Dom 08 Jul 2012, 22:52

Regressados ao Dar, o Massimo deu-nos conta da hora do jantar, pelas 20h30… Dava tempo para tomar uma banhóca e consultar um bocado de net.



a meter umas fotos

Depois subimos ao telhado do Dar onde está montada uma marquise com uma belíssima esplanada, que oferece uma tremenda vista sobre os telhados da fortaleza portuguesa. Ficámos radiantes! A marquise era grande o suficiente para acomodar uma pequena cozinha e uma sala de estar. Entrámos e já por lá se encontrava o Massimo e sua companheira. Ele fazia anos, teríamos portanto bolo e champanhe por conta!



a "pasta" estava espectacular

A massa estava estupenda, como só os italianos sabem fazer. Falámos de uma série de coisas. Da vida, da nossa vida, da vida deles, e de como se vive por aqui. Entre outras coisas, ficámos a perceber que a vida por ali é extremamente barata, que o Massimo se radicou por ali por estar farto da situação política e económica no seu país. Quando lhe fiz a pergunta do porquê da mudança, respondeu-me: “Berlusconi”!… Farto de impostos, da corrupção, de uma economia em crise e depois de perder a mulher, e já com a filha criada resolveu mudar-se de armas e bagagens para El Jadida. Tinha feito duas ou três viagens a Marrocos antes, e El Jadida, cidade mais calma à beira mar, pareceu-lhe o ideal para se estabelecer. A filha e netos estavam em Itália, mas faz-lhes visitas frequentes, e todos os dias falavam e via-os pela internet. Gostava de viajar, e todos os anos visitava um lugar diferente. Já tinha estado uns dias em Lisboa, e durante a estadia fez questão de todos os dias comer bacalhau! Mostrou-me até um livro de receitas de bacalhau da Filipa Vacondeus.

Instalou-se por aqui, encontrou esta companheira com menos vinte anos e agora só queria viver bem e sossegado no seu cantinho. Tinha saudades de ter uma mota, mas para um estrangeiro aqui, ter uma mota não é fácil. Aqui só há motoretas e triciclos à venda. Trazer alguma máquina lá de fora, é caro e obriga a renovação da licença de importação a cada 6 meses… E depois, há a verdadeira maluqueira do trânsito… Mas andava de olho em algum anúncio, não fosse surgir alguma oportunidade!

Enchemos a barriga com a fantástica “pasta”, que bem que soube! E depois veio a champanhóla e o bolo, este muito bom por sinal. Não acabámos o champanhe, ficando mais de meio-copo a cada um. O italiano juntou tudo no copo dele, e goela abaixo!… Não se pode estragar, disse ele!

Ainda vimos um álbum de recortes de imprenssa, do Massimo, da época em que era gondoleiro. Ficámos à conversa mais um pouco, e descemos até aos nossos quartos para dormir. Já cá em baixo o Massimo fez-nos sinal para espreitarmos lá fora a praça… Estava lá o guarda marroquino com um colchão improvisado para passar ali a noite…


o nosso "guardien"

Ainda se deu mais umas tecladas na net, e fomos ao descanso merecido.

continua...

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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Seg 16 Jul 2012, 22:15

Dia 10, El Jadida-Assilah

Acordámos depois de uma noite bem dormida. Abri a janela e espreitei para a praça, a ver se o guarda lá estava… E estava mesmo, a tomar o pequeno-almoço.
Rotina da manhã, despachar as coisas e subimos ao telhado para o pequeno-almoço.






vistas do topo do Dar, a partir da fortaleza

Lá em cima, já nos aguardava uma mesa com o menu habitual: café, chá, pão, doce, mel e crepes marroquinos. O dia estava promissor, céu descoberto e temperatura amena. Mandámo-nos ao pequeno almoço e pouco depois surge o Massimo envergando uns estilosos óculos escuros e uma T-shirt amarela fluorescente com o logo dos “Ombre Rosso”, o grupo de amigos motard de Veneza. Pelo que percebi uma espécie de Comando Padeiros lá do sítio.


ombre rosse

Ligou a televisão que ali havia, marcou o canal das notícias e depois magicamente seleccionou um serviço de tradução em português… As maravilhas da televisão digital de satélite. Ficámos um pouco à conversa, acertámos as contas e estava na hora de partir. O guarda já lá não estava, já tinha cumprido o seu serviço. Parece que até apanhou um pouco de chuva durante a noite.



Carregámos as motos, alinhámo-las e tirámos uma foto com este castiço italiano. Um tipo boa onda, que gosta de gozar bem a vida. A estadia neste Dar, teve um ar mais intimista e ficou mais a sensação de ficar na casa de um amigo, do que propriamente num hotel. Quando reservámos aqui a estadia, e pela localização estávamos com a ideia que seria uma excelente escolha, e acabou por ser ainda melhor do que esperávamos!


interior do Dar

Despedidas e arrancámos, saindo pela última vez do exterior da fortaleza portuguesa.


os três estarolas e o gondoleiro

O itinerário de hoje contemplava mais um pouco de estrada costeira até às proximidades de Casablanca, onde desviaríamos para a auto-estrada até Assilah, o nosso destino. Seria a primeira vez também que iríamos rolar numa auto-estrada marroquina.
Mais um pouco de estrada costeira até às proximidades de Casablanca, onde evitámos percorrer a cidade e ingressámos na auto-estrada. E que grande confusão que é este acesso. Muito trânsito, semáforos, o caos! Ainda fizemos uns quantos quilómetros em ritmo moderado por traçado desacertado, até chegarmos a um troço capaz de se qualificar como auto-estrada e seguimos por ali uns quantos quilómetros. De aspecto, nada de muito diferente das nossas, duas a três faixas delimitadas com rail, e portagens em tudo iguais ao que estamos habituados, excepto no preço que aqui é bem mais razoável.

Saímos da A3 (Casablanca/Rabat) nas imediações de Rabat e desviámos para a A1 (Rabat/Tanger) sempre rumando para Norte.
Logo depois de entrar parámos na primeira estação de serviço para almoçar. Hoje tinha mesmo de ser por aqui, havia ainda muito quilómetros a percorrer por auto-estrada sem passar por localidades. Na estação pedimos umas pizzas e hambúrgueres e para rematar mais um daqueles crepes folhados marroquinos recheados com mel.


Almoço meio-marroquino na estação de serviço

Não demorámos muito, e voltámos à estrada.

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Última edição por Cobra em Seg 16 Jul 2012, 22:34, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Seg 16 Jul 2012, 22:16

Íamos descontraídos. Já não me lembro bem, seguíamos em duas faixas desimpedidas e eu à frente. Às tantas o Barradas diz-me que ia de mãos dadas com o Benedito…
Perdão?... Opá… Faziam era isso à minha frente para eu filmar a cena – respondi-lhe…
E assim foi… Passaram os dois para a frente e começaram a dar as mãos… em andamento, que nem artistas…
Depois trocou-se o par, fui “dançar” com o Barradas à frente do Benedito enquanto este filmava. E ainda bem que se filmou duas vezes, pois mais tarde verifiquei que na altura a lente da minha câmara tinha nela barrada os restos de um moscardo, inviabilizando o registo! Felizmente ficou a fita do Benedito para a posteridade.

Esta auto-estrada era um pouco diferente da primeira. Duas faixas, com um separador central largo cheio de vegetação. Nesse separador chegámos a ver um polícia marroquino com tripé e binóculos montados. Estavam mais à frente, a passar multas.
As auto-estradas marroquinas têm que se lhe diga. Se por um lado de aspecto são iguais às nossas, de uso são totalmente diferentes. Assim, não é raro ver pessoas a andar por lá e a atravessá-las, burros, rebanhos, etc… Ia a comentar isso mesmo com o Barradas, dizendo-lhe que só nos faltava ver um gajo a vender fruta… Meu dito, meu feito… Acabávamos de passar por um tipo na berma de braço estendido com uma abóbora na mão!…
Papámos os restantes quilómetros de A1 sem problemas. A temperatura estava amena e toda aquela distância fez-se bem até à saída nas proximidades de Assilah. E foi mesmo aí à saída que fomos parados pela polícia. Quer dizer, foi com o Barradas que pegaram. Eu e o Benedito passámos.

Não havia razão, viemos sempre nos limites, mas numa ou outra esticada é possível que se tenha rodado ligeiramente acima do limite, e que fossemos fotografados por um daqueles tipos de tripé, enfiados no meio da folhagem.
Não demorou muito e o Barradas veio ter connosco depois das portagens. Nada de especial, o polícia motard marroquino queria apenas saber como tudo estava, se estávamos a gostar e até esteve a tirar medidas ao casaco do Barradas. Fantástica esta gente!… Estou para ver isto a acontecer na Europa. Não digo que não aconteça, mas deve ser raro, e aqui não é. Parece-me que o Barradas ainda quis tirar uma foto, mas nada feito… Devem ser ordens superiores, apesar de tentarmos, não trouxemos de lá nem um retrato da polícia marroquina, nem das suas magníficas BMW RT último modelo.

Já muito próximos de Assilah, mais um quilómetros de nacionais até à entrada da pequena cidade costeira. Para hoje não havia reserva, apenas a referência de um ponto onde poderíamos procurar dormida, o hotel Dar Andalhous… De hotel tinha pouca coisa, só mesmo os quartos sem qualquer serviço adicional. O preço era em conta e poderíamos deixar as motas à beira do hotel numa rua sem trânsito. Entrei eu primeiro para ver se havia algum triplo, e havia. O recepcionista levou-me ao primeiro andar para me mostrar o quarto, que julguei bastante satisfatório. O aspecto era limpo, casa de banho privativa e espaço suficiente para nos mexermos, nós e as nossas bagagens. Fiz-lhe sinal que sim, e logo de seguida fomos buscar a bagagem.


o pátio do Andalhous, reparem onde dorme o recepcionistas

Ainda era de dia pelo que não demorámos muito por ali e saímos logo à rua para dar uma voltinha pela costa e Medina.


felizes da vida, com um barbão de 10 dias

Assilah é uma cidade pequena, com uma Medina pequena e muito mais inspirada no estilo Andaluz do que no Árabe. Tudo ali faz lembrar Espanha! Historicamente, Assilah foi inicialmente tomada pelos árabes aos gregos e fenícios em 712 depois de Cristo. Na época dos Descobrimentos foi conquistada pelos portugueses e reconstruída, para logo de seguida ser retomada pelos Árabes. E depois vieram os espanhóis que no século XVII sucumbiram ao assalto dos árabes. É apenas durante o século XX que esta cidade é oficialmente integrada no Reino de Marrocos, tendo sido até aí considerada uma cidade base de piratas (em 1829 foi bombardeada pela marinha espanhola e austríaca como retaliação à pirataria).





As habitações fazem lembrar o Sul de Espanha, mas as muralhas exteriores da cidade são nossas. Portuguesas, e ainda estão por lá de pé!

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Última edição por Cobra em Seg 16 Jul 2012, 22:36, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Seg 16 Jul 2012, 22:19



A Medina está mais ou menos “muralhada” e o acesso lá por dentro faz-se a pé ou de motoreta, como é prática geral em todas. Entrámos por um dos arcos de acesso à Medina e lembrámo-nos de fazer uma foto daquelas “prá palhaçada”. Já tínhamos ensaiado uma há uns dias à saída do deserto. Nessa altura o Barradas ficou a disparar a máquina enquanto eu e o Benedito nos mandávamos ao ar… Tentámos fazer o mesmo, mas agora os três. A minha máquina tem modo finório para isso, quando programada consegue disparar 4 ou 5 fotos de rajada. Metemos umas camisolas no chão, assentámos e programámos a máquina, e mandamos um pulo na esperança que alguma foto nos apanhasse aos três no ar… E conseguimos!


jump!

Pegámos na tralha e continuámos Medina adentro. Não tínhamos feito mais que três metros, quando o Benedito se volta para trás. A caminho dele já estava um marroquino com o braço estendido e a carteira do Benedito na mão. Tinha-se esquecido dela no chão. Agradecemos ao marroquino, mas parece que não chegava… “Una propina!”… Dizia ele… Ai o cacete!… A história das propinas outra vez?!... Mas desde quando um gesto destes tem de ser recompensado com dinheiro?!... Hã?!... Tenho aqui mesmo uma propina na ponta do sapato, serve?!... Santa paciência! Negámos e virámos-lhe costas e seguimos… Temos pena, mas para este género de tipos não há conversa possível, temos que ser desagradáveis. O tipo lá veio atrás de nós com a história da propina, e às tantas desistiu… Quer dizer, já o tínhamos deixado a uns vinte metros e agora via-o a contar a “história” aos comerciantes locais de rua que por ali estavam, na esperança de não sei bem o quê, talvez de incitar uma rebelião… Que tipo estúpido.



sem comentários...


Não ligámos, seguimos caminho e enfiámo-nos pela Medina, que não achámos particularmente interessante. A verdade é que o seu ar pouco exótico e o facto também de por esta altura já termos “papado” muitas Medinas, não nos deixou impressionado com esta. Saímos dali por outra porta que nos dava acesso ao mar. E adivinhem quem reencontrámos?! O nosso querido “amigo”! O tipo tinha metido na cabeça que haveria de fazer dinheiro connosco e não desarmou.

Em espanhol tentou dialogar com o Barradas chamando-lhe a atenção que por ser aqui e tal, não lhe tinha ficado com a carteira, se fosse em Tanger tinha desaparecido dizia ele… O Barradas no seu melhor espanhol respondeu-lhe que se tivesse fugido com ela, nós corríamos atrás, e que de onde vinhamos não se cobra por este tipo de gestos.

Virámos-lhe as costas novamente e parece que finalmente nos livrámos do melga.




De seguida resolvemos caminhar um pouco mais e conhecer a parte nova da cidade. Fomos por aquilo que nos pareceu ser uma rua principal, até quase aos limites da cidade.



De caminho passámos por uma igreja católica de influência claramente ibérica e cruzámo-nos também com um grupo enorme de adolescentes saídos de uma qualquer escola.



café da moda


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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   Seg 16 Jul 2012, 22:30




a arte faz o engenho

Depois voltámos para trás e fomos à procura do jantar. O tipo do Dar Andalhous recomendou-nos um bom restaurante não sei onde, mas parece que era caro. Optámos então por outros mais acessíveis, precisamente na rua paralela à do hotel… E não foi propriamente uma escolha feliz.



Nessa rua, havia três ou quatros restaurantes de seguida, do mesmo género: cheios de salamaleques coloridos e placards luminosos. Escolhemos um ao acaso. Seriam uma 19h30 quando nos sentámos na esplanada. Veio um tipo meio enrascado, e fizémos o pedido… mas espera… para já, só podíamos pedir pizzas, a cozinha só abria às 20h00.

OK, tudo bem, pedimos uma pizza de entrada para os três. Ficámos entretidos até às 20h00, e finalmente lá pedimos os pratos principais que se dividiram entre calamares fritos (à la plancha) e espetadas de peru que se transformaram em espetadas de frango. Não estava nem bom, nem mau, antes pelo contrário. Enquanto comíamos havia por ali um gato atrevido que rondava as nossas pernas e miava que nem um desalmado. Este não deixava outro, mais enfezado, chegar sequer próximo da nossa mesa. Mas o tipo só lhe cheirava a carne e o calamar, o resto, come-o tu!... Volta não volta o empregado enrascado vinha enxotá-lo, mas sem grande sucesso… Mas tudo bem, o bicho era um bocado chato, mas era simpático e bonito. Pagámos e zarpámos dali. Não foi muito barato, mas também não foi muitocaro, e digamos que serviu.


o restaurante era um boteco deste género

Quando voltávamos ao Dar Andalhous, na rua ao lado, um marroquino aborda o Benedito… “Una propina? 100 Dirhams? (cerca 10€) ”… Ai, que é agora!...

O Benedito já estava pelos cabelos também, e em bom português perguntou-lhe, o porquê?... “Amigo”… respondeu o malandro.

“Amigo?! Eu sou teu amigo, dá-me tu Dirhams a mim!!!” disse-lhe o Benedito... O tipo virou-se para ele e riu-se.

E ficou por ali a conversa... O que se passa com estes tipos?!…

Amigos marroquinos!... Nós é q estamos em crise, tá?! Vocês é que estão a crescer… Não há cá Dirhams de borla, ainda para mais para sustentar malandros!
Finalmente voltámos ao hotel, as motas estavam como as deixámos, amarradas, debaixo dos candeeiros.


quase que a metia lá dentro

Este Dar não tinha wi-fi nem qualquer tipo de internet, de modo que aproveitei para trocar as fotos com o Benedito e o Barradas… Aqui descobrimos que o Benedito numa troca de mãos tinha eliminado um dia de filmagens, mais propriamente o dia da pernoita em Marraquexe… É pena, mas de qualquer forma não faltará fita para fazer um filme desta aventura!

E estava na hora de ir-mos à deita. Mas não sem antes fazer uma “maldade” ao Barradas que já estava no sétimo sono…



Atenção, convém esclarecer que a vaselina serviu bem o seu propósito mas nos beiços do Barradas e Benedito. Se não fosse este tubinho, os lábios dos dois chegavam ao fim da viagem em carne viva… Sem malícia, OK?!...

continua...

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MensagemAssunto: Re: Rota Berber (25ABR-05MAI2012)   

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Rota Berber (25ABR-05MAI2012)
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